Olhar teórico sobre a Tipografia

Entrevista dada pelo designer Emmanuel Bellard para a Revista Wide publicada 09/09/2013

Quantos profissionais do mercado tipográfico se utilizam do conhecimento teórico em suas atividades? Quem trabalha nesta área se mostra realmente preocupado em buscar referências no processo criativo? Para falar sobre este assunto, a Wide conversou com Emmanuel Bellard, pesquisador independente na área de tipografia e design estratégico e idealizador do curso de “Introdução à Tipografia”. Confira.

WIDE: Atualmente você atua como pesquisador independente na área de tipografia. O que lhe motivou a imergir neste universo e quais os objetivos que você pretende atingir nestes estudos?

EMMANUEL: Sou designer, formado pela Escola Superior de Desenho Industrial, e desde a época de estudante tinha curiosidade a respeito de estilos de letras e sua história, mas isso não fez parte do conteúdo do programa do curso. Na ocasião, há mais de vinte anos, eu não percebia isso como lacuna em minha formação profissional. Naquela época, o repertório de fontes disponíveis pertencia ao mundo dos catálogos impressos de fotocomposição e Letraset, um universo bem menor do que a selva tipográfica digital dos dias de hoje.

Depois de formado, percebi que muitas vezes os designers eram encarados como “pessoas criativas e de bom gosto” produzindo trabalhos a partir de idiossincrasias e que a avaliação dos projetos era dotada de grande subjetividade. De alguma maneira, isso me fez querer exercer as escolhas e decisões dentro dos projetos de modo técnico, evitando, ou pelo menos, minimizando retóricas sobre como o gosto é relativo. Percebi que a tipografia, tanto nos aspectos da linguagem como em seu “vocabulário técnico”, fornecia meios de desenvolver projetos gráficos de modo mais preciso, com mais apuro visual, produzindo diferencial nos resultados.

Além dessa busca por diferenciais, a abundância de fontes disponíveis te obriga a estabelecer algum critério para fazer as escolhas. Como separar o joio do trigo? Como classificar ou agrupar minimamente centenas de fontes de modo que fiquem disponíveis para consulta e uso segundo critérios objetivos? Essas questões me levaram a essa imersão no universo tipográfico. A tipografia pode envolver abordagens de caligrafia, cálculo, geometria, linguística, semiótica e até história. Essa variedade de abordagens possíveis transformou o que era necessidade em paixão e, quando percebi, a aquisição de conhecimento foi maior do que o necessário às questões práticas dos projetos. A partir disso, movido pelo desejo de estabelecer interlocuções e compartilhar conhecimento, percebi que possuía condições de elaborar um curso que correspondesse à tal lacuna no ensino de design que mencionei.

Embora o panorama do ensino de Tipografia nos cursos de graduação tenha evoluído, em muitos casos vejo os estudantes se queixarem de abordagens excessivamente pragmáticas, sem arcabouço teórico. Aprendem a fazer fontes sem conhecer o repertório de informações de mais de quinhentos anos de conhecimento ligados a tipos e estilos de letras – bem mais de quinhentos se considerarmos as escritas caligráficas a ele relacionadas.

Meu maior objetivo no momento é reingressar na vida acadêmica e contribuir de modo mais efetivo com a consolidação do ensino de tipografia dentro dos cursos de graduação em design.

WIDE: Em sua opinião, qual o valor do conhecimento teórico na vida profissional de um tipógrafo?

EMMANUEL: Não sou tipógrafo enquanto alguém que desenvolve fontes profissionalmente, mas, como designer, sou alguém que utiliza como matéria prima de trabalho a “substância” que os tipógrafos produzem. Pensando letras e elementos tipográficos como substância visual fica fácil entender que o conhecimento dessa matéria é indispensável na produção de qualquer forma de comunicação visual. Até uma cartolina escrita sem critério com caneta hidrocor é comunicação visual, mas, enquanto detentores de conhecimento formal sobre sistemas visuais acho é obrigatório aprofundar o conhecimento. Você pode escrever um livro sem ter bom vocabulário, mas certamente o resultado é pobre. Particularmente, acho inadmissível que designers lidem com tipografia de um modo estritamente intuitivo.

De qualquer modo, mesmo quem tem pretensões como desenvolvedor de fontes precisa saber que a roda já foi inventada. Não dá pra fazer um projeto profissional sem conhecer a história da formação do panorama atual e entender que herança os tipos e estilos de letra trazem em seu DNA.

WIDE: E você acha que nos últimos anos, aqui no Brasil, os profissionais desta área se mostram preocupados em estudar a teoria?

EMMANUEL: Tem muita gente nova bastante ligada em teoria, possibilitada pela ampla disseminação da informação – mais do que as gerações anteriores. A meu ver, entretanto, não é algo generalizado e, em parte, muito por culpa dos cursos de graduação que apostam em abordagens superficiais enfatizando o pragmatismo.

Ano passado, após postar uma divulgação do meu curso no Facebook, vi uma menina manifestar sua decepção por se tratar de um curso teórico. Não existe atalho para a qualidade em nada, mas isso é uma tendência da nossa sociedade. Não tentam vender equipamentos de ginástica abdominal pra você malhar sentado numa poltrona vendo televisão? O despertar da consciência é lento, uma grande cruzada.

“Particularmente, acho inadmissível que designers lidem com tipografia de um modo estritamente intuitivo.”

WIDE: No mundo da tipografia, atualmente é possível se destacar no mercado apenas com o talento?

EMMANUEL: Dificilmente, mas não vejo isso como exclusividade do meio da Tipografia ou do Design. O talento deve estar associado a uma série de outros predicados. Conhecimento do mercado, por exemplo, é fundamental.

WIDE: Você é o idealizador o curso de “Introdução à Tipografia”. Poderia abordar mais sobre este projeto e os principais tópicos abordados nas aulas?

EMMANUEL: O curso existe desde 2012 organizado de forma independente. Recentemente estabeleci essa parceria com a 2AB apostando no alcance do seu público e existem outras parcerias em estudo, inclusive em outros estados.

O roteiro do curso é apoiado em uma linha de tempo iniciada no Império Romano, origem do alfabeto latino, e finalizada na era digital. Através dessa cronologia consigo relacionar os fatos históricos e delimitações ideológicas com vocações dos estilos e desenhos de letras, explicar a consagração de determinadas práticas em design e apresentar questões de linguagem tipográfica presentes em estratégias de orientação do consumo. O motivo pelo qual maiúsculas tem um aspecto mais solene, por quê o meio editorial prefere os tipos romanos, por quê a Helvetica alcançou tanta popularidade, qual a distância que existe entre fontes comerciais batizadas de Garamond e seus originais na renascença são exemplos e questões que permeiam o curso e que tenho certeza que interessam a qualquer designer, diretor de arte ou outros profissionais de algum modo envolvidos com criação. Acredito que o conteúdo do curso sirva como um conjunto inicial de referências para quem lida com criação em design gráfico e projeto tipográfico.

WIDE: É verdade que em breve você pretende lançar um livro?

EMMANUEL: É verdade. Como consequência da extensa pesquisa que realizei para estruturar o curso, estou finalizando, até o fim deste ano, meu livro que acredito possa ser uma valiosa contribuição para o meio acadêmico. Neste momento estou começando a relacionar editores para apresentar o projeto.

Fundições tipográficas

2 RebelsAbout TypeAdobeAlphabets FontsAltemusApollo ProgramAstigmatic One EyeAtomic MediaAgfa/MonotypeBitstreamBüro DestructCastle TypeClub21ComicraftDalton Maag LtdDTP Types LtdDutch Type LibraryElsner+FlakeEnschedéEmigreFine FontsFontBoyFontShopFont SourceFountainFuel FontsGalápagosGarage FontsH.W. CaslonHouse IndustriesIdentikalITCKiller FontsLetterheadLetter PerfectLetrasetLetterrorLinotypeLudlowMicrosoftMindCandyNeufville DigitalNick’sNo Bodoni
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